Implante coclear: cirurgia transforma a vida de pessoas com deficência auditiva

Hospital Bettina é referência no Norte nesse procedimento

Eva Pires / Especial para O Liberal

O motorista José Ilto Pires, de 58 anos, viu a vida mudar drasticamente após perder a audição em um acidente que causou trauma acústico devido à explosão de um tanque de gasolina. Foram três anos de silêncio e depressão. Até que, há seis anos, em 2018, o implante coclear, cirurgia que substitui a parte danificada do ouvido interno, permitindo a recuperação da audição em pessoas com perda auditiva severa ou profunda, foi realizada, renovando a vontade de viver. "Foi uma alegria imensa!”, contou.

Ele relembra a emoção de quando ouviu pela primeira vez depois da cirurgia. “Ouvi o barulho do vento e, depois, das pessoas falando. Sou muito grato por isso, pela inteligência que Deus deu ao homem, aos médicos e também à tecnologia desse aparelho, que veio para ajudar muito a gente", diz.

image O motorista José Pires recuperou a audição depois do implante coclear, cirurgia que substitui a parte danificada do ouvido interno. (Igor Mota / O Liberal)

No Pará, desde 2010, o Hospital Universitário Bettina Ferro de Souza (HUBFS) é referência no procedimento de implante coclear, que pode ser realizado gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O médico otorrinolaringologista e coordenador do programa de implante coclear do HUBFS, Diego Farias, explica como funciona a cirurgia, para quem é indicada e de que forma pode transformar a vida de pessoas com deficiência auditiva.

Segundo o especialista, o impacto da cirurgia vai além da recuperação da audição, permitindo que os pacientes retomem suas atividades cotidianas e sociais. “Esse avanço oferece a chance de ‘voltar para o jogo da vida’”, acredita o médico.

O que é um implante coclear e quem pode realizá-lo?

Diego Farias detalha que o implante coclear é um dispositivo eletrônico que tem duas partes. Uma é implantada cirurgicamente dentro do osso temporal, na orelha interna, na cóclea, e o segundo é o que vai fazer o paciente poder captar os sons do ambiente e jogar essa informação para o próprio implante coclear, que é o processador externo.

Para realizar a cirurgia, o paciente passa por uma série de procedimentos, incluindo anamnese, testes físicos, audiométricos e psicológicos, com o objetivo de avaliar o grau de surdez e determinar se ele pode se beneficiar do procedimento.

Os candidatos ideais são aqueles com surdez profunda bilateral hereditária, que não têm benefícios com aparelhos auditivos convencionais.

image Os candidatos ao implante coclear são aqueles com surdez profunda bilateral hereditária, que não têm benefícios com aparelhos auditivos convencionais (Igor Mota / O Liberal)

O especialista orienta que a reabilitação com implante coclear seja realizada o quanto antes, especialmente em crianças com surdez profunda. Ele destaca que, se uma criança não recebe estímulo sonoro desde o nascimento, o cérebro pode redirecionar a área auditiva para outras funções, como a visão, dificultando a recuperação auditiva depois de certa idade.

Segundo as diretrizes do Ministério da Saúde, após os quatro anos de idade, se a criança não tiver desenvolvido sinais de audição e linguagem, o implante se torna contraindicado. Por isso, o acompanhamento precoce com fonoaudiólogos e a detecção rápida da perda auditiva são essenciais para garantir o melhor desenvolvimento dos pequenos. "Quanto mais cedo a detecção, mais chances de reverter a perda e adquirir a audição de linguagem. Alguns casos, infelizmente, chegam já atrasados aqui conosco", pontua Farias.

No entanto, ele ressalta que crianças que nascem surdas e recebem o implante coclear podem recuperar a audição e aprender a falar. O apoio familiar e a reabilitação precoce são essenciais para evitar limitações e garantir um desenvolvimento pleno.

Reabilitação e acompanhamento

O HUBFS oferece acompanhamento pós-cirurgia com uma equipe multidisciplinar. Após o implante coclear, o paciente não começa a ouvir imediatamente, pois o aparelho precisa se adaptar ao organismo. O processo de cicatrização dura cerca de um mês, após o qual a parte externa do implante, o processador de fala, é ativada.

A fonoaudióloga Cintia Yamaguchi explica que, na fonoaudiologia, a ativação do implante e as primeiras medições de estimulação elétrica são feitas, com ajustes graduais durante mapeamentos periódicos.

Ela explica que a reabilitação auditiva varia conforme a experiência prévia do paciente com a audição. "Crianças que nasceram sem ouvir precisam aprender a ouvir", e por isso, passam por sessões semanais de fonoterapia para aprender a identificar sons do cotidiano, como o som da água ou da porta. Já os adultos que perderam a audição precisam reaprender a ouvir, pois os sons que lembram não são mais os mesmos.

Avanços tecnológicos

A tecnologia dos implantes cocleares está em constante evolução. Além dos avanços tecnológicos nos processadores, o serviço em si também está progredindo, possibilitando a manutenção ou substituição dos dispositivos, a realização do implante coclear bilateral (em ambos os ouvidos) e a cirurgia da prótese ancorada ao osso, indicada para outro tipo de perda auditiva.

Hoje o hospital está em processo de habilitação junto às Secretarias de Saúde e ao Ministério da Saúde. Assim que essa etapa for concluída, novos procedimentos serão disponibilizados para ampliar a reabilitação auditiva, conforme informado pelo médico Diego Farias.

Outra tecnologia mencionada pelo especialista é utilizada durante o procedimento cirúrgico: a monitorização do nervo facial. Durante a cirurgia, esse sistema identifica a proximidade do nervo facial, que passa pelo ouvido, próximo ao labirinto, alertando a equipe médica para evitar qualquer dano.

Referência na região Norte

O implante coclear é realizado no HUBFS desde 2010, e já beneficiou cerca de 200 pessoas, com a campanha de triagem em andamento desde 2015. Por anos, o hospital foi a única instituição da Região Norte a oferecer o procedimento gratuitamente, até a ampliação do serviço, em 2023, para o Hospital Delphina Rinaldi Abdel Aziz, no Amazonas.

O Hospital Universitário Bettina Ferro de Souza não é uma unidade de atendimento de porta aberta, ou seja, todos os procedimentos, incluindo o implante coclear, precisam ser realizados via encaminhamento da atenção básica. Isso significa que o paciente deve passar primeiro por uma consulta em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), Unidade de Saúde da Família, Unidade de Pronto Atendimento (UPA) ou pronto-socorro. A partir dessa consulta, o encaminhamento é feito pelo sistema de regulação da Secretaria Municipal de Saúde (Sesma). Somente com esse encaminhamento o paciente poderá marcar a primeira consulta.

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