Dia Mundial do Autismo: atividade física potencializa o desenvolvimento de jovens neurodivergentes

Os ganhos são tanto físico quanto emocionais e sociais

Camila Guimarães

Nesta quarta-feira, 2 de abril, é celebrado o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, data que busca, entre outras coisas, difundir informações sobre o transtorno e promover a inclusão. Uma das formas de garantir isso é proporcionar o desenvolvimento físico e emocional de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), fazendo com que obtenham mais autonomia e independência - dois resultados diretos da prática de atividade física para esse grupo de pessoas. Em Belém, em uma academia adaptada, crianças e adolescentes praticam exercícios com ganhos físicos, psicológicos e emocionais.

A academia feita especialmente para alunos neurodivergentes recebe crianças desde os três anos de idade até adultos com TEA - o mais velho, atualmente, tem 39 anos. No espaço, eles têm acesso a exercícios adaptados para suas necessidades e combatem uma condição comum entre as pessoas com TEA: a hipotonia, ou baixo tônus muscular, que acaba sendo um dificultador da função motora, impactando diretamente atividades simples do dia a dia, como se vestir sozinho, escrever ou mesmo brincar. A prática de atividade física, sobretudo com foco na musculação, é uma alternativa para driblar o problema e potencializar o desenvolvimento de crianças e jovens autistas.

Na sala infantil, Natan Hage, de 11 anos de idade e nível dois de autismo, aperfeiçoa o gerenciamento do hiperfoco no futebol, aprendendo outras modalidades esportivas enquanto também desenvolve o tônus muscular e a coordenação motora.

image Nathan Hage, 11, ganha tônus muscular e melhora hiperfoco com a prática de atividade física (Wagner Santana / O Liberal)

"A gente percebe que ele tem esse hiperfoco no futebol e só quer falar disso. Mas na socialização, ao longo da vida, ele vai precisar saber interagir falando de outros assuntos, então, à medida que ele pratica exercícios, conhece outros esportes, ele também vai gerenciando esse hiperfoco, além do ganho na força e na musculatura", detalha o professor de educação física Lucas Araújo.

Já a aluna Helena Shimizu, de 14 anos, também nível dois de autismo, vem trabalhando sobretudo no ganho de tônus muscular - ao 'brincar' de puxar um pneu com o objetivo de retirar os grampos colocados na ponta da corda, a adolescente realiza um exercício equivalente à remada da academia e, ainda, exercita a coordenação motora física ao retirar os pregadores no final, conforme explica a professora de Educação Física, Priscila Lima.

"A gente desenvolve um exercício adaptado, com cara de brincadeira, de forma mais lúdica, para que eles vão se exercitando e ganhando força, melhorando a postura, melhorando o condicionamento como um todo", explica a profissional.

image Helena Shimizu, 14, melhorou a sociabilidade na escola depois de praticar atividade física e conseguir participar melhor na educação física na escola (Wagner Santana / O Liberal)

Além do benefício físico, a atividade também tem reflexo na socialização de Helena na escola: "Ela mudou de escola recentemente e não estava conseguindo acompanhar as outras crianças na prática da Educação Física. Aqui, ela recebe uma atenção especializada que está ajudando a ganhar a força e a coordenação necessária para que ela possa se integrar melhor na escola. Isso viabiliza não só o ganho físico, mas a inclusão e a sociabilidade", destaca.

Priscila explica que a hipotonia não é uma condição diretamente atrelada ao autismo, mas que muitas pessoas dentro do espectro acabam apresentando o problema - o que afeta sobretudo crianças e adolescentes: "O músculo é necessário para todas as nossas atividades, então se você tem um músculo fraco, você tem dificuldade de se manter em pé, sentado com a postura ereta, de vestir uma roupa, ficar numa perna só, porque o músculo não consegue se sustentar. A educação física entra para fortalecimento dessa musculatura, juntamente com a coordenação motora".

image Crianças e adolescentes com autismo se beneficiam física e emocionalmente da prática de atividade física (Wagner Santana / O Liberal)

Academia ajuda a lidar com a adolescência

A funcionária pública Josiane Neves, de 46 anos, mãe do Manoel Neves, adolescente de 14 anos com autismo nível 2 e hiperatividade, encontrou na prática da academia um apoio para auxiliar no desenvolvimento do filho. Ela conta que o filho já pratica academia há cerca de quatro anos e que buscou essa atividade por indicação médica.

"Ele faz um tratamento integral do autismo que não visa só a questão medicamentosa, mas a saúde dele como um todo. A gente preza muito pela alimentação saudável e prática de atividade física e menos medicação", comenta Josiane Neves.

image Manoel Neves, 14, consegue regular melhor a hiperatividade presente junto com o autismo a partir da prática de academia (Wagner Santana / O Liberal)

Ela também conta que Manoel, além de autismo, também tem o diagnóstico de hiperatividade e que a academia tem sido uma forma de ele melhorar a própria regulação emocional, ajudando a desenvolver disciplina e paciência.

"A atividade física melhorou de modo geral. Como ele é muito agitado, é como se o corpo dele precisasse dessa atividade física para se regular, porque além de autista ele é hiperativo e essa atividade ajuda ele a liberar essa energia, se concentrar um pouco mais e ajuda de modo geral na vida dele", ela conta.

Manoel pratica academia junto com outros adolescentes autistas da mesma faixa etária - o que também colabora para o desenvolvimento da maturidade e da percepção de si enquanto um jovem, não mais uma criança - um dos benefícios da atividade, para além da saúde física, conforme pontua a professora Priscila Lima:

"Assim como é para as pessoas neurotípicas, a gente tem a fase da adolescência que a gente se transforma. Tem a questão hormonal, que o humor muda, os nossos hábitos, nossos questionamentos, tudo vem com a puberdade. Com os autistas não é diferente. Quando vem essa explosão de hormônios, geralmente, eles tendem a resgatar dificuldades que eles tinham no passado", explica.

image Josiane Neves, mãe atípica, relata benefícios da academia para a saúde física e emocional do filho (Wagner Santana / O Liberal)

Conforme a professora, a percepção da nova fase de vida é importante para o amadurecimento do autista: "Eles começam a perceber que a voz mudou, que têm pelos, que as pessoas não enxergam eles como crianças fofinhas. Quando antes era uma criança que abraçava e sentava no colo, na adolescência as pessoas não querem mais, porque já são rapazes. Eles percebem o meio julgando eles", descreve Priscila.

Neste ponto a prática dos exercícios auxiliam não apenas na percepção do corpo, mas toda ambiência específica da academia e a convivência com outros jovens da mesma faixa etária promovem o amadurecimento do adolescente autista: "A gente criou esse ambiente pensando nessa transição - não é tão colorido como a sala kids, tem essa pegada de mostrar que eles estão com outras pessoas, adolescentes como ele, com músicas diferentes, não mais infantis. Quando eles começam a perceber que estão num ambiente diferente, com pessoas semelhantes a eles, eles começam a perceber que eles também mudaram", comenta Priscila.

Como já sinalizado pelos professores de educação física Lucas Araújo e Priscila Lima, a pedagoga Flávia Silva corrobora com a importância da atividade física como um ganho para as habilidades sociais do autista:

"As crianças com autismo têm dificuldade de se relacionar e manter a relação com os pares da mesma idade, então, a atividade física vai trabalhar esses aspectos emocionais e sociais. Ela vai propiciar o trabalho de questões como respeito a regras, a troca de turno, a espera da sua vez para realizar um comando, tempo de tolerância, de disciplina... então a atividade física é de suma importância para o desenvolvimento de crianças neurodivergentes", detalha.

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