Pedaço da corda é símbolo de devoção
Apesar dos apelos da Igreja, corte da corda da Grande Romaria é feito por promesseiro

Os 43 anos da professora Silvia Saldanha se entrelaçam com os mais de 20 anos que ela participa do Círio de Nazaré. Devota da Virgem, a educadora foi sozinha, por 16 anos, como promesseira da corda, um dos ícones da fé dos paraenses. A saúde e a idade, como ela explica, a impossibilitaram de seguir, “mas, mesmo assim, sempre ganho os pedaços que mostram que eu não posso ir, mas Nossa Senhora vem até mim”.
“Eu tenho pedaços da corda de todos os anos. Meus irmãos ainda vão e me dão os pedaços. Em 2008 foi o ano que eu disse para Nossa Senhora, com tristeza, que eu não ia mais conseguir ir no ano seguinte, mas, em 2009, minha filha teve um AVC e, em 2010, eu retornei para agradecer pela saúde dela. Depois não pude mais ir e acertei que faria o trajeto caminhando”, lembra, ao explicar que, para ela, o sentimento de ir na corda se assemelha ao de renovação. “É ali que você reflete e agradece. Eu sempre fui para agradecer por tudo o que alcancei, porque ela sempre esteve na minha vida nos momentos que eu mais precisei”, explica.
Questionada sobre o motivo de guardar os pedaços de corda, Silvia garante que não encara o objeto como um amuleto. “É mais uma recordação. É olhar e saber que eu posso, que ela me dá forças para caminhar, porque ela me mostrou várias vezes que eu tenho força suficiente para seguir”, esclarece. Ela ainda ressalta que, em sua opinião, é na corda que “está depositada a fé”. “É uma forma de estar perto da fé, perto de Nossa Senhora e de trazê-la para casa”, diz.
Mesmo tendo pedaços de vários anos, a educadora não hesita em reconhecer os seus preferidos. “Tenho uma história especial com alguns pedaços que eu guardo. Um é o de 2008, quando disse que seria meu último ano, e o outro é um pedaço do atrelamento, porque meu irmão mais velho faz parte da Guarda de Nossa Senhora e nos presenteou”, conta ela, explicando que “todos os anos, quando a berlinda é levada para o galpão, é retirado um pedaço da corda do atrelamento e alguém é presentado. Naquele ano, foi meu irmão”.
Apesar de não ser mais promesseira da corda há oito anos, Silvia, dessa vez, tem um novo motivo para retornar. “Tenho uma proposta para 2018, porque, há um ano, descobri um câncer de pulmão e estou fazendo tratamento. Por incrível que pareça, senti os sintomas na trasladação. Quando saí, fui direto para o hospital e, após exame prévio, fui encaminhada a um pneumologista e diagnosticada com câncer. Faço quimioterapia e, esse ano, um amigo disse que a promessa dele era que nós acompanharíamos na corda até onde Nossa Senhora permitisse. Eu não sei se eu vou aguentar, mas eu já disse para Ela que se não der para seguir na corda, eu vou continuar fazendo o trajeto como eu sempre fiz, seguindo os passos dela” declara, emocionada.
Pesquisadora com mestrado em Ciências Sociais e doutorado, em andamento, em Sociologia e Antropologia, ambos com o tema Círio, Mariana Ximenes esclarece que o simbolismo em meio ao sisal trançado se justifica porque a corda, com o passar do tempo, “virou uma relíquia”.
“É um objeto que fica sacralizado, santificado e tem um poder milagroso em si. Pelo simbolismo, pela participação dele no ritual, ele agrega esse sacramento, por isso as pessoas levam para casa e aquilo vira um objeto que ajuda, protege”, argumenta.
De acordo com a estudiosa, antes do Círio, “a corda não tem esse significado, porque ainda não recebeu o ‘poder’”. “Depois que ela entra no Círio e passa por essa ‘santificação’, se torna um objeto que é tido como relíquia, que ganha o poder de abençoar e proteger, por isso a ideia de levá-lo para casa”, esclarece.
O promesseiro da corda, o engenheiro Marcos Leal, 39, coordena o grupo “Amigos da Estrela”. Formado por 25 pessoas, eles participam, anualmente, da corda do Círio.
“Eu tinha costume de acompanhar o Círio apenas com o meu pai e a minha mãe, mas fui crescendo e quis agradecer de outra forma. Foi quando, no meu ano de convênio, passei a ir na corda. Com o tempo, os problemas da vida aparecem e, além de agradecer, eu passei a pedir”, lembra Marcos, recordando que o “Amigos da Estrela” foi formado espontaneamente.
“Meus amigos da Pedreira, bairro onde eu morava, me viam e diziam que queriam ir comigo. Hoje em dia vamos juntos e, ao final da procissão, a gente se reúne e divide o grande pedaço de corda que conseguimos. A minha, eu guardo todos os anos”, conta.
Ele afirma que, como a ida na corda já virou tradição, muitas pessoas da família já ficam na expectativa de receber seus pedaços. “Para mim, e acho que para eles também, é como se fosse uma proteção. Eu até ando com um pedaço junto comigo, na mochila do trabalho, como também faço com meu terço. Acho que se torna um amuleto, porque é o lugar mais concentrado de fé que existe durante a procissão”, opina.
Diretor coordenador do Círio de Nazaré 2018, Cláudio Acatauassú garante que, mesmo com todo o simbolismo, o corte antecipado da corda deve ser evitado sempre. Na tentativa de atingir esse objetivo, Cláudio explica que a diretoria está intensificando a fiscalização, com maior presença da Polícia Militar (PM) e da Guarda da Santa nas estações. “Assim como no ano passado, instalamos plataformas de observações em todo percurso, a fim de que a PM tenha melhor visualização do que acontece na procissão e ainda reforçamos a fiscalização na avenida Nazaré, perímetro compreendido da Doutor Moraes até Rui Barbosa, onde geralmente ocorre o corte” detalha.
No trajeto, caso os devotos sejam pegos com facas e objetos cortantes, Cláudio explica que a PM está orientada a apreender os objetos e “retirar aquele promesseiro da corda”, além de fazer os procedimentos cabíveis.
Palavras-chave
COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA