Médico que atestou o óbito de Marília Mendonça diz não esquecer a cena dentro do avião
O médico afirma que era um super fã da cantora e que foi um dos dias mais difíceis que já teve profissionalmente
Após seis dias da morte da cantora Marília Mendonça, ocorrido com a queda do avião Beechcraft King Air C90, no município de Caratinga, interior de Minas Gerais, o médico intervencionista e coordenador do Samu da cidade, Kleyton Carvalho, que foi o primeiro profissional da saúde a entrar na aeronave, fez diversos relatos sobre o resgate do corpo da cantora e de mais quatro passageiros em entrevista à Redação Integrada de O Liberal.
Kleyton contou que chegou no local onde o avião estava por volta das 15 horas depois de receber o chamado por meio da central de regulação da cidade. Ele afirma que a cena foi impactante, pois os corpos estavam bem próximos um do outro e que nesse momento ainda não sabia a identidade das vítimas.
“O primeiro corpo que vi era do produtor, cheguei até ele e verifiquei se tinha sinais vitais, não tinha mais. Aí fui para o lado, e tive a confirmação de que se tratava da Marília Mendonça, fui até ela verificar os sinais vitais, mas infelizmente também estava sem sinais vitais. Logo à frente estava o tio dela, também caído no meio da aeronave, mais adiante encontrei os pilotos, todos estavam sem sinais vitais”, lamentou o médico.
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Kleyton se considera uma fã incondicional da cantora, com a presença em vários shows da mesma. O médico não deixou de demonstrar tristeza e comoção ao lembrar do que sentiu ao perceber que se tratava dela. Segundo ele, a cena vai ficar para sempre na memória.
“Sou fã da Marília e quando eu entrei no avião, que eu pude olhar para ela, levantar o cabelo dela para verificar os sinais vitais, foi uma cena que já está bastante marcada pra mim. Eu não vou esquecer nunca na vida. Eu queria um dia conhecê-la sorrindo e viva. Infelizmente por ironia do destino, o destino já estava traçado e era eu que tinha que estar ali, que podia ajudar de alguma forma as pessoas e a família. É bem difícil essa imagem que eu tenho dela”, enfatizou.
Resgate mais difícil da carreira
Toda junta de pessoas que participaram do resgate relataram sobre a dificuldade de acesso ao lugar do acidente. Durante a retirada dos corpos uma das preocupações era o risco de explosão devido ao vazamento de combustível, além da força da água por se tratar de uma região de cachoeira.
“Era um lugar extremamente íngreme e a quantidade de combustível também chamou a atenção. Era um atendimento de grande risco, não sabíamos se a aeronave poderia explodir ou cair na cachoeira. Além da correnteza muito grande, era uma coisa muito difícil essa chegada ao avião”, disse.
Ele afirmou que tecnicamente esse foi o resgate mais difícil de sua carreira, pelas condições arriscadas envolvendo o local do acidente. Para ele, toda equipe também considerou um grande desafio.
“A angústia ao saber que estava diante de um ídolo seu, a vontade de chorar era constante, e também pelas pessoas que estavam com ela. Depois que acabou tudo eu tive que me conter, tive que ser forte para controlar a situação de todo atendimento”, destacou.
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Sobre a causa da morte
Os óbitos foram constatados dentro da aeronave por Kleyton, e ele conta que em primeira análise superficial, a causa morte foi em decorrência de politraumatismo. No entanto, só resultado do instituto médico legal irá confirmar.
“Esse tipo de fratura é comparado a queda de um elevador quando cai do prédio e se choca com o solo. Durante o atendimento notei fraturas de membros inferiores, aparentemente, não tenho certeza, mas acredito que tinham fraturas nas pernas e braços também, porém é difícil afirmar sem uma perícia mais completa, pelo pouco espaço dentro da aeronave era difícil ter essa confirmação, mas percebi sinais de politraumatismo em todos os tripulantes”, disse.
O médico disse que os corpos não apresentavam fraturas expostas, nem visceração de órgãos, ou seja, quando órgãos saem para fora da cavidade.
Sobre os passageiros estarem usando cinto de segurança ou não, o médico relata que não pode afirmar se o cinto se rompeu durante a queda, mas revela que encontrou todos sem cinto. Perguntado se o cinto teria feito diferença ele afirma que não.
Emoção ao se deparar com o rosto de Marília
Perguntado sobre o que viu ao olhar para o rosto da artista, ele detalhou emocionado.
“Não tinha machucado, não tinha cicatriz, nem nada que chamasse atenção, como fratura exposta ou coisas do tipo. Estava ali um anjo repousando, um anjo dormindo, ali estava a rainha sertaneja, a rainha do Brasil, a mãe do Léo, a filha da dona Ruth. Ali era um rosto de anjo”, expressou-se.
Kleyton destaca ainda sobre o cheiro dentro da aeronave, o intervencionista falou sobre um perfume muito bom, adocicado, que acredita ter quebrado na hora do impacto. Esse cheiro, afirma ele, era de Marília.
“Eu sei que era dela porque como tive muito contato durante a retirada dos corpos, senti somente nela. Essa lembrança do cheiro vai ficar o resto da vida, é algo que marcou bastante. Quando cheguei em casa a mistura do perfume com o combustível eu sentia muito forte”, relembrou.
Seguindo com relato sobre os objetos da cantora, o especialista em atendimento de urgência e emergência diz ter encontrado o celular de Marília. Ele conta que o descanso da tela estava com a foto dela e que havia uma quantidade grande de notificaçoes de mensagens chegando.
Cenário dentro do avião
O médico disse que ficou surpreso com a destruição do lado dentro da aeronave, que segundo ele, não dava para notar do lado fora o quanto ela estava danificada. O médico descreveu os detalhes por dentro.
“Para quem olhava a aeronave do lado de fora, entendia que ela não estava tão danificada. Quando entrei eu pude perceber e ver a destruição do lado de dentro. Tinha mala sobre as vítimas, material espalhado, a lateral de dentro tinha se desprendido, tinha bancos, malas e todos os materiais usados no voo em cima dos corpos. Eu não esperava encontrar a aeronave nessa situação quando entrei, muito destruída”, relatou.
Em respeito às famílias das vítimas, o médico teve a iniciativa de preservar a imagem dos corpos no momento da retirada do avião.
“Foi difícil, mas graças a Deus não houve exposição das vítimas. Depois que acabou tudo eu tive que me conter, tive que ser forte para controlar a situação de todo atendimento”, disse.
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