Tuberculose: doença na Amazônia preocupa especialistas
Cidadãos devem adotar medidas de combate a enfermidade no dia a dia
Durante o pique da pandemia em 2020 e 2021, o registro e o tratamento de casos de tuberculose no Brasil foram prejudicados pela disseminação de ocorrências da enfermidade transmitida pelo coronavírus. Isso resulta, agora, na preocupação de especialistas de que nos próximos anos ocorra um aumento de ocorrências e casos mais graves da tuberculose, em particular na Região Amazônica onde a incidência costuma ser elevada.
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A médica pneumologista e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Margareth Dalcolmo, ressalta que a tuberculose é uma preocupação especial para os brasileiros pelo impatco que a covid-19 teve sobre ela. A partir dos dados oficiais do Ministério da Saúde (MS), já se sabe que houve uma redução de 40% de testes diagnósticos feitos no Brasil.
"A Cidade de Manaus (AM) é a primeira do Brasil e a segunda é o Rio de Janeiro, então, a Amazônia sempre teve uma prevalência de microbactérias, dessas a da tuberculose é a mais prevalente de todas. Então, nós temos preocupação, porque nós sabemos que vamos ter agora uma diminuição que não é verdadeira, pela falta de diagnóstico e de tratamentos interrompidos e muito provavelmente tenhamos um boom de casos no próximo ano, inclusive, com repercussão sobre a mortalidade (nos próximos anos)", destaca a médica. "Isso no Brasil todo e, em particular, na Amazônia, porque a Amazônia tem incidência tradicionalmente mais alta", acrescenta.
Margareth Dalcolmo é autora do livro “Um tempo para não esquecer”, finalista do Prêmio Jabuti na categoria Ciências, e ela foi eleita, em agosto, para a Academia Nacional de Medicina. Margareth participa do 57º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (Medtrop).
Cuidados e sintomas
Para a prevenção de novos casos da doença, é fundamental reconhecer os sintomas mais comuns. "Então, qualquer pessoa que tenha tosse, com ou sem catarro, deve procurar um serviço de Saúde, sobretudo, se isso demora mais de duas semanas, sem curar, a despeito de tratamentos feitos, porque há suspeita. Se há contato com alguém, sabidamente doente, também deve procurar o serviço de Saúde. A tuberculose é uma doença infectocontagiosa transmitida de pessoa a pessoa, ninguém pega tuberculose do ar, do carro, da faca, pega de outra pessoa doente", enfatiza Margareth Dalcolmo.
"Nós temos observado um aumento de casos resistentes aos fármacos comumente utilizados, que é a outra preocupação que nós temos, pelo abandono dos tratamentos eventualmente em curso que possam desenvolver resistência aos fármacos. Isso é muito grave, porque isso impacta no sofrimento humano muito maior e em um custo para o Sistema de Saúde também muito maior", salienta.
Doença e pobreza
A enfermeira e epidemiologista e professora da Universidade Federal do Espírito Santo, Ethel Maciel, destaca que a pandemia trouxe desafios adicionais relacionados à tuberculose no Brasil, porque já se tinha muita dificuldade, principalmente, a algumas populações mais vulnerabilizadas, como a pessoas privadas de liberdade, pessoas em situação de rua.
"Com o aumento da pobreza, especificamente no Brasil, e a tuberculose como uma doença que está muito relacionada à pobreza, acaba impactando em um aumento do número de casos e na gravidade desses casos. Porque essas pessoas, essas populações têm uma dificuldade maior de acessar o serviço de Saúde, e, com isso, acaba ficando doente por mais tempo. E, quando chega ao serviço de Saúde, além de estar transmitindo por mais tempo, acaba tendo uma doença mais grave. Então, já chega em um estágio muito mais grave da doença", observa a médica. Ela também participa do Medtrop, no Hangar, em Belém.
Ethel Maciel destaca que o cidadão deve prestar atenção com relação aos sintomas da enfermidade. "Do ponto de vista do Governo, da gestão, a gente precisa ampliar a educação para ensinar às pessoas quais os principais sintomas; oferecer o diagnóstico nas unidades de Saúde mais próximas das pessoas e promover campanhas para diagnóstico da tuberculose, em escolas, empresas e oferecer o tratamento aos enfermos", aponta Ethel Maciel. Ela pontua que a tuberculose uma das doenças que mais matavam, antes da covid-19; agora, é a doença infecciosa que mais mata no mundo.
Na ciência
Como presidente da Rede Brasileira de Pesquisas em Tuberculose (Rede-TB), Ethel Maciel lançou, em Belém, o livro "Mulher na Ciência - lutar e existir em tempos de pandemia": "Na saúde, somos a maioria. Mas, infelizmente, somos a minoria em locais de poder, em tomada de decisão, e precisamos que haja políticas efetivas para equidade, igualdade de gênero, precisamos de políticas públicas para isso".
Como exemplo da atuação das mulheres na ciência no Brasil, a professora repassa que a liderança nas pesquisas de vacinas, na epidemiologia, de tratamento reúne grandes cientistas brasileiras, que, inclusive, estiveram na linha de frente da covid-19.
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