Projeto 'Afluentes' mapeia a identidade sonora da Amazônia em podcast e plataforma digital
Idealizado pelo DJ e pesquisador Zek Picoteiro, o projeto estreia em 31 de março com episódio sobre o Beiradão e traz um site interativo com conteúdos sobre os ritmos amazônicos
A Amazônia é um território sonoro rico e diverso, onde os ritmos se formam a partir das relações entre os povos e os rios. Do Carimbó ao Tecnobrega, do Marabaixo à Toada do Boi-Bumbá, os gêneros amazônicos carregam histórias, tradições e influências que se transformam constantemente. É nesse universo musical que nasce Afluentes, um projeto idealizado pelo DJ, produtor e pesquisador musical Zek Picoteiro, que estreia na segunda-feira (31) com um podcast dedicado a mapear a identidade sonora da região.
Realizado pelo Instituto Regatão Amazônia, com fomento do Programa Funarte Retomada, da Fundação Nacional das Artes (Funarte), do Ministério da Cultura e do Governo Federal, o projeto vai além do podcast. Ele conta, ainda, com uma série de vídeos e um site interativo, que servirá como repositório digital para informações sobre gêneros musicais, artistas e movimentos culturais da Amazônia. O objetivo principal de Afluentes é compreender como a música se organiza e circula pela bacia hidrográfica amazônica. Durante anos, Zek Picoteiro realizou uma ampla pesquisa, catalogando os ritmos da região e refletindo sobre como a música da floresta é percebida pelo restante do país.
“Esse projeto surgiu a partir do meu acervo de músicas. Ao longo da minha jornada como DJ, comecei a fazer uma garimpagem e catalogar os nossos gêneros e percebi o quanto a indústria fonográfica nunca conseguiu compreender os nossos sons. Sempre caímos na caixinha do regional. Então, eu organizei esse meu acervo e, com a ajuda da Funarte, consegui fazer as viagens de barco para ouvir artistas, músicos, radialistas e pessoas nas beiras de rio, para entender como a música circula pela nossa bacia hidrográfica”, explica Zek. O projeto contará com seis episódios na primeira temporada, cada um dedicado a um gênero musical diferente. Além do podcast, o site de Afluentes trará um mapa interativo, artigos, diários de bordo das viagens, playlists e sets mixados, criando um material inédito para quem deseja explorar mais a fundo a música amazônica.
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Os rios como vias musicais da Amazônia
Na Amazônia, os rios são muito mais do que caminhos para navegação. Eles são as principais vias de circulação cultural, transportando não apenas pessoas e mercadorias, mas também sonoridades, tradições e novas influências musicais. Para Zek Picoteiro, compreender a música amazônica significa entender essa dinâmica dos rios, que servem como elo entre comunidades e fazem a cultura se espalhar. “Cada gênero musical é como se fosse um braço, um furo, uma fonte, um olho d’água, uma ilha… um afluente dessa enorme ‘bacia hidromusical’ que existe aqui na Amazônia. Para entender melhor essa relação, eu decidi navegar pelos nossos rios e encontrar pessoas que fazem a nossa música acontecer”, diz Zek.
Em Afluentes, Zek percorre rios como o Amazonas, o Tapajós e o Guamá para entender como cada gênero musical se desenvolve, como é consumido e como circula entre os povos ribeirinhos. O projeto destaca estilos que já ganharam espaço fora da Amazônia, como a Lambada e o Tecnobrega, mas também foca em ritmos que ainda são pouco conhecidos fora da região, como o Beiradão.
Beiradão: a música das festas ribeirinhas
O primeiro episódio de Afluentes será dedicado ao Beiradão, um gênero que nasceu nas comunidades ribeirinhas do Amazonas e se expandiu para outras partes da Amazônia. Combinando elementos do Forró, da Lambada e da Guitarrada, o Beiradão tem um ritmo contagiante, marcado pelo uso de teclados, guitarras e saxofones. Inicialmente, o termo Beiradão não se referia a um gênero musical, mas sim ao espaço onde aconteciam as festas nas beiras dos rios. Nessas festas, a música era apenas uma parte do evento, que também envolvia dança, gastronomia e rituais religiosos. Com o tempo, a sonoridade dessas celebrações passou a ser reconhecida como um estilo próprio, com artistas e bandas que se dedicam exclusivamente ao gênero.
“O Beiradão é um fenômeno cultural. Não é uma cultura sazonal, é o ano inteiro tocando essa música, que é uma mescla cultural muito grande. Não são só as bandas, os saxes, é também a culinária, a caldeirada de bodó, o jaraqui, o linguajar, o lado religioso, que são os festejos, tudo isso que culmina na música. Uma cultura muito rica”, conta Hadail Mesquita, um dos principais nomes do gênero, responsável pelo canal Portal Beiradão no YouTube, que já acumula mais de 10 milhões de visualizações. O Beiradão se tornou um fenômeno que se espalha por 17 mil quilômetros de rios, sendo presença constante nas festas ribeirinhas. Ao longo do episódio de estreia, Afluentes explora essa sonoridade única, trazendo relatos de músicos, moradores e pesquisadores que acompanham o desenvolvimento do gênero.
Plataforma digital e acesso ao conteúdo
Além do podcast, Afluentes contará com um site que apresentará um mapa interativo da bacia amazônica, permitindo ao público visualizar os gêneros musicais mapeados e conhecer artistas e movimentos culturais. Esse portal funcionará como um acervo digital, reunindo textos, entrevistas, playlists e materiais audiovisuais. Zek espera que o projeto ajude a valorizar a música amazônica e a romper estereótipos sobre a produção musical da região.
“Agora, o que o público pode esperar é muita informação e reflexão sobre os nossos gêneros musicais. Espero que a gente consiga se identificar mais com as sonoridades vindas de outros Estados. São episódios que vão apresentar gêneros do Pará, Amazonas e Amapá, e todos eles têm muitas coisas em comum, como a própria relação com o rio, que acaba definindo uma estética amazônica única”, ressalta.
Onde ouvir
O primeiro episódio de Afluentes, com o tema Beiradão, será lançado no dia 31 de março e estará disponível em todas as plataformas digitais, como Spotify e Deezer. O site oficial do projeto também reunirá todos os conteúdos produzidos, além de artigos e materiais complementares. O público poderá acessar o portal pelo link. Com uma abordagem sensível e inovadora, Afluentes promete revelar a força da música amazônica e mostrar ao Brasil e ao mundo como os ritmos da floresta continuam vivos e pulsantes, navegando pelos rios que conectam culturas e histórias.
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