MENU

BUSCA

Paraenses falam sobre saúde mental no MMA após brasileiro ter crise de ansiedade antes de luta

Quemuel Ottoni teve o combate no Contender Series cancelada após crise de ansiedade

Aila Beatriz Inete

O MMA envolve força, agilidade, técnica, superação e saúde mental. Sim, para além dos treinos físicos, de golpes e táticas, o universo da luta também exige o equilíbrio mental. Na última terça-feira, o brasileiro Quemuel Ottoni teve a luta cancelada no Contender Series, reality que pode dar um contrato para o UFC, após ter uma crise de ansiedade. O episódio levantou novamente a questão da importância do acompanhamento psicológico na modalidade, dominada por homens. 

Otoni iria fazer o combate da sua vida. O duelo seria contra o norte-americano Kody Steele, mas foi retirado do card por conta da crise. Após o episódio, Ottoni foi até as redes sociais e falou sobre o momento. Segundo o lutador, ele ficou "congelado" ao ver as câmeras e toda a estrutura do evento. 

VEJA MAIS 

"Esse caso do Quemuel Ottoni veio para que a gente fique de alerta, se cuidar e ter como obrigação ter um acompanhamento psicológico. É importante, faz parte do nosso quadro como lutador, ainda mais quando chegamos a esse nível de UFC, Belator, LFA, PFL, super eventos que têm várias câmeras, muita tensão, pessoas assistindo no mundo todo. Se a gente não estiver bem, tudo isso pode acabar afetando na hora da luta", afirmou o atleta. 

O atleta´é natural do Moju e ex-campeão do LFA. Para Igor, quando o lutador é jovem, ele vai para o combate sem tanta pressão e obrigações. Contudo, à medida que a carreira vai decolando, o atleta pode começar a sentir a influência externa e cobranças pessoais podem surgir. Por isso, ter um acompanhamento psicológico se faz tão necessário. 

"A saúde mental ainda é um tabu muito grande no mundo do MMA. Porque a gente quer ser o cara durão e a não falamos muito sobre isso. Por ser um esporte muito novo, o MMA tem só 30 anos, o UFC começou em 1994, a gente vai se adaptando. Hoje, chegou a parte da nutrição, preparação física e que agora a saúde mental possa ficar também entre os pilares da nossa preparação", apontou Igor. 

A pressão da torcida, a tensão por vitórias e fatores externos podem ser difíceis de lidar sozinho. O lutador lembrou que, em alguns momentos, a pressão psicológica era tão grande que o seu principal desafio era ele mesmo. 

"Nas minhas últimas lutas, chegou a um ponto em que o meu principal adversário não era mais o meu oponente, a minha luta era interna. E eu não tive o acompanhamento de um profissional, me apegava muito na parte religiosa, na igreja e eu ia me acalmando", revelou Igor. 

Um esporte mental

Felipe Froes, lutador paraense natural de Ananindeua, também destacou que o acompanhamento psicológico é extremamente relevante. Para ele, a mente é a parte central de um combate.  

"A saúde mental no MMA aos poucos está ganhando espaço. Eu já trabalho essa parte psicológica há cerca de cinco anos e isso faz total diferença na minha carreira. Só que ainda hoje existe um tabu em que os lutadores acham que não é necessário, acham que o MMA é só técnica de luta. Só que no combate, acredito que 70% é mental e 30% é o que foi treinado. Então, para mim, no dia da luta, o mental é muito mais importante do que a parte física", ressaltou o paraense. 

Paysandu: confira dicas de psicólogo para superar momentos difíceis como o da equipe bicolor
Papão tem vivido momento difícil na Série B e saúde mental dos jogadores pode ter afetado resultados em campo; pessoas comuns também podem sofrer psicologicamente por problemas externos

Paysandu: psicólogo explica como saúde mental pode afetar desempenho de jogadores em campo
Papão passou por crises fora dos gramados, o que pode ter afetado os jogadores psicologicamente e, consequentemente, os resultados em campo

Felipe já teve uma crise de ansiedade antes de um compromisso no octógono. Em 2022, o lutador tinha uma luta marcada na Rússia, no entanto, na época, o país havia iniciado os ataques contra a Ucrânia e os dois países entraram em guerra. O fato assustou o paraense e ele precisou de atendimento médico após a crise. 

"Eu ainda fiquei com a crise durante a viagem, no dia da luta, no vestiário, eu fiz exercícios de respiração que a minha analista passou e foi o que me ajudou. E normalmente, quando começa a luta, a adrenalina passa, porque é uma coisa que a gente convive muito e, quando estamos dentro, o corpo simplesmente flui e as coisas acontecem", concluiu Felipe. 

Ambos os lutadores não conhecem organizações que disponibilizam apoio psicológico para os atletas. Mas agora, com a discussão em pauta, Igor Siqueira espera que os eventos estejam mais abertos ao assunto e tenham psicólogos, assim como têm os nutricionistas e outros profissionais. 

"Eu não conheço nenhuma organização que tenha um incentivo para os atletas terem acompanhamento psicológico. Quando a gente viaja para as lutas, muitos eventos têm um profissional da nutrição auxiliando no que a gente pode comer e agora, eu espero que a gente também possa ter esse incentivo na parte da saúde mental", finalizou Igor Siqueira. 

Mais Esportes