Produtores de Igarapé-Miri dizem que controle de qualidade vai salvar o açaí

Greve recente foi motivada pelas dificuldades de garantir a qualidade do produto comercializado

Natália Mello / O Liberal

Maior produtor de açaí do Pará, o município de Igarapé-Miri passou, recentemente, por algumas intermitências nas atividades. A greve dos trabalhadores durante a safra do fruto, e que durou cerca de duas semanas, preocupou o setor produtivo, que para além dos limites territoriais paraenses, abastece o mercado internacional. Na última quarta-feira (1º), após reunião de representantes do Sindicato dos Trabalhadores Rurais da cidade com a Federação da Agricultura e Pecuária do Pará (Faepa), foi criado um comitê de debates em torno dessa cadeia produtiva para atuar dentro da Câmara Setorial da rota do açaí.

Em entrevista à reportagem do Grupo Liberal, produtores do município falaram da preocupação com a qualidade do fruto, que não seria priorizada por atravessadores – responsáveis por comprar o açaí na cidade e levar até a indústria. A não preocupação com a qualidade seria um dos motivos para as dificuldades de negociação sobre o preço da matéria-prima, que não teve aumento nos últimos anos. “A gente acompanha muito pouco do que é produzido no município, cerca de 8%, porque muitos produtores estão fora da organização do Sindicato. Ou seja, a maioria da produção é comercializada sem certificação orgânica, sem controle. Açaí não é só tirar da árvore e colocar no cesto. Tem processos que precisam ser feitos, manejo adequado”, ressaltou o presidente do Sindicato dos Trabalhadores do município, Elivelton Miranda.

Fluxo

De acordo com informações da entidade, do total colhido do fruto, apenas 48 mil paneiros de 600 mil que saem do município por semana são oriundos de cooperativas e, ainda, apenas de 2 a 3% do que é produzido é para consumo da população local, já que a exportação detém mais de 90% do resultado da atividade. Líder da produção de açaí do Estado, Igarapé-Miri representa 30% desta atividade produtiva, que contribui fortemente para que o Pará seja o maior produtor do fruto do Brasil, hoje responsável por 94% do que é produzido em território brasileiro.

Em 2019, o Estado produziu aproximadamente 1,3 milhões de toneladas frutos, movimentando R$ 8,6 bilhões. Diante desse cenário de extrema relevância para a economia local, a proposta dos trabalhadores é que, com uma fiscalização maior para a qualidade do que é colhido e comercializado, seja agregado valor ao produto no mercado e, assim, a atividade garanta um incremento ainda maior para o desenvolvimento sadio da cadeia paraense. Em seu discurso, Elivelton, produtor de açaí desde 2004, afirmou saber da importância dos empresários para os produtores, e levantou a dúvida se a recíproca é verdadeira.

“Não sei se o empresário tem consciência que precisa de nós organizados. A gente precisa salvar o açaí, todos nós, em que se pese que é preciso, para isso, trabalhar a cultura de forma organizada. Ao invés, por exemplo, de utilizar saca de fibra, usar o paneiro (ou rasa de açaí, que possui 28 kg). Um hambúrguer que é vendido embalado, se não for feito o processo correto, não será vendido. Temos medo de perder espaço no ciclo do açaí com isso tudo. Hoje, por exemplo, temos 11 fábricas instaladas aqui que não conseguem absorver nada, e mais de 50% do fruto sai do município porque as indústrias não beneficiam”, explica.

image Cooperativas atuam com comercialização padronizada (Sidney Oliveira / O Liberal)

Cooperativas

Igarapé-Miri possui três organizações/cooperativas que atuam com a comercialização padronizada do açaí, cuja colheita iniciou no município na década de 90, após o fim do ciclo da cana de açúcar. Essa trajetória de crescimento da cadeia do fruto na cidade foi acompanhada pelo produtor Mauro Leão, de 59 anos, dos quais mais de um terço dedica à atividade do açaí. A família dele, que antes também trabalhava com a cultura da cana, hoje tem 98% dos rendimentos provenientes das pequenas frutas roxinhas.

A produção diária é de 30 rasas de 28 quilos por dia. O produtor explica como funciona. “Eu tenho meus dois filhos que colhem, mais um sobrinho, porque trabalhamos em regime familiar. Aí entregamos para a cooperativa, que hoje está pagando 60 reais. Aí repasso 30% para eles, que colhem. Hoje faço parte de uma cooperativa porque acredito na importância do manejo adequado do açaí. Fazemos cursos de bons tratos, não arriamos açaí na terra e sim na lona, para que o fruto saia daqui com melhor qualidade. Fazemos isso para valorizar essa cultura, barganhar mais valor ao produto. Criamos em 2005 a Caipim e hoje temos mais de 100 cooperados”, lembra.

Vidver da floresta

A intenção do produtor é crescer e levar o açaí a outro patamar de crescimento, desde que seja possível desenvolver a cadeia junto com a vida desses trabalhadores. “Hoje vejo que é muito bom viver da floresta, até por estar no ambiente que vivemos hoje. Imagina você nesse horário na cidade, se aqui está quente, imagina na cidade. Aqui eu tenho como produzir, na cidade não. E a dificuldade do emprego está tanta. Meus filhos estudaram e não conseguiram emprego e estão trabalhando na nossa área. Imagina se tivéssemos dois mil cooperados com cursos de bons tratos, os grandes empresários reconhecessem isso, aí eles ganham com a cooperativa lá fora”, concluiu,

Para o sócio e fundador da Xingu Fruit, Uberlândio Santos, boas práticas de manejo garantem a qualidade do açaí comercializado, já que a partir disso é possível saber o melhor momento de colheita e maturação do fruto. Atualmente, a empresa paraense, que exporta para 13 países, entre eles USA, Alemanha, Emirados Árabes, Chile, Inglaterra, Singapura, Austrália, acredita na força da comunidade como uma política social, percebida por meio da formação das cooperativas.

“Isso vem também para melhorar a qualidade de vida das comunidades, além de permitir que a gente tenha uma rastreabilidade da nossa fruta, porque precisamos atender aos padrões de açaí orgânico exigidos no mercado”, pontuou. O empreendimento consome de três cooperativas em Igarapé-Miri e mais de 10 outras associações de produtores de municípios que também se destacam na cadeia produtiva do açaí, como Abaetetuba, Cametá e a região do Marajó. “. Se o açaí não for de qualidade, não tem aceitação de mercado. É importante não deixar com que outras regiões produzam melhor do que a gente, senão a gente perde o valor da nossa região”, concluiu.

Reivindicação

Membro da diretoria da Faepa e da Câmara Setorial do Açaí, Clésio Santana Souza afirma que o diálogo com a classe trabalhadora, nesse momento, é importante para que comece a se pensar como podemos resolver o problema de forma coletiva. A ideia é se criar uma planilha que demonstre o que é gasto na produção, de forma exata, já que cada município possui uma realidade diferente.

“O custo em Igarapé-Miri não é o mesmo para os outros, por exemplo. Estamos preocupados em pensar o Pará inteiro. A reivindicação dos produtores é legítima, por isso devemos partir de um levantamento. Eles estão passando realmente uma situação complicada. No interior, a gasolina já está a R$ 7 e, fora isso, é preciso pagar sempre 30% do que é produzido para o peconheiro (pessoa contratada para retirar o açaí no galho, com um artefato colocado nas pernas chamado de peconha)”, destaca o membro da Faepa.

Participarão do Comitê produtores de açaí, gestores municipais, empresários e representantes de indústrias, que ficarão responsáveis pela elaboração de uma planilha de custo para a produção do açaí, com objetivo de chegar a um preço justo do produto, sem que haja prejuízos na cadeia. A Câmara Setorial da rota do açaí, que cuidará do Comitê, é uma unidade organizativa que faz parte do Conselho Estadual do Agronegócio, onde atuam, além da Faepa, a Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) e membros da sociedade civil organizada. O comitê deverá se reunir na próxima semana com os representantes da cadeia produtiva do açaí no arquipélago do Marajó.

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