Dia Internacional do Livro Infantil: crianças e adultos celebram a descoberta de novos mundos
Autores de livros infantis, Daniel Leite e Ingrid Santos / Akrizilê Wa Zambi discorrem sobre a contribuição de obras literárias para a formação de leitores e cidadãos, em especial na Amazônia

Uma pessoa é feita de descobertas, e assim o que costuma marcar a vida de crianças e adultos são os momentos em que são descobertas coisas e pessoas capazes de gerar ou reforçar sentimentos, pensamentos e ações. Nesse processo, o livro, seja impresso seja digital, tem o papel decisivo de mostrar a meninos e meninas e a homens e mulheres a aventura da vida real e a riqueza do imaginário que povoa os seres humanos. Daí porque o Dia Internacional do Livro Infantil, a transcorrer nesta quarta-feira (2), funcionar como ponto de partida para a reflexão acerca da presença ou ausência da leitura no dia a dia de cada um, em especial na Amazônia. Afinal, gostar de ler é o mesmo que gostar de descobrir coisas, palavras, lugares, gente e por aí vai, e nada melhor que fazer isso a partir do cenário em que se vive.
Uma boa história pode estar na própria região onde se mora e também bem distante, até em outro planeta. O Dia Internacional do Livro Infantil foi instituído para homenagear o escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, nascido em 2 de abril de 1805, ou seja, há 220 anos. Anderson escreveu contos de fada como “O Patinho Feio”, “O Soldadinho de Chumbo”, “A Pequena Sereia”, “A Roupa Nova do Rei” e “A Polegarzinha. No entanto, cada país ou cada povo tem suas histórias em geral ambientadas em seus cenários para serem contadas para as novas e mesmo antigas gerações. É o caso, por exemplo, da literatura infantil produzida na Amazônia, especificamente no Pará.
Plantar um rio
O escritor Daniel Leite é autor do livro “A história das crianças que plantaram um rio”. “Essa é a história de um homem velho que precisa da mediação das histórias de uma avó para que ele volte a a ser criança. É a história de um homem que escutou da nossa avó que um dia levaram embora daqui da nossa terra o nosso rio, o nosso rio que era nosso irmão de águas, que vinha morar embaixo da nossa casa que tinha perna alta e magrela. O nosso rio foi levado embora por ladrões de todo lugar do mundo. Ficou só o fundo seco no fundo da terra, a alma da água esquecida pela pressa dos ladrões que tudo levam dessa Amazônia”, destaca Daniel.
Mas, um dia, a avó do homem contou que vieram crianças de todo lugar do mundo e cantaram uma canção para o céu, e, então, choveu. As crianças apararam as águas da chuva com as mãos e foram até o local do antigo rio. Lá, plantaram a chuva, em forma de semente, para ter de volta o rio. Plantaram o rio de volta na terra.
O lirismo da trama do livro revela às crianças a necessidade de se preservar o rio e outros recursos naturais da floresta. Daniel Leite diz que o livro infantil traz sempre a possibilidade de um encontro, da partilha dos afetos. É um livro do qual se espera que seja lido em família, que um familiar que leia com a criança. “A criança que tem a sua leitura de criança escutada por um adulto, por um pai, uma mãe, percebe que o livro também, além de um objeto de arte, da imaginação, é um objeto dos afetos, dos encontros”, destaca esse autor.
A partir do livro infantil, surge um jovem crítico, com imaginação acesa. A Literatura infantil serve para gente miúda e graúda, como frisa Daniel Leite, faz nascer a criança criativa, o cidadão pensante, criativo, ativo, e em especial na Amazônia. “Nós temos livro infantil que pensa a Amazônia diante do mundo, um livro que não é só território, mas linguagem”, diz. Daniel defende o livro infantil escrito na Amazônia que faça a criança conhecer, descobrir a região. Para se ter uma criança leitora, é fundamental se ter uma rede de afetos, uma casa leitora, uma família leitora, como frisa esse autor.
Pertencimento
A professora com formação em Pedagogia e produtora cultural Ingrid Santos / Akrizilê Wa Zambi lançou em fevereiro último o livro “Dindi e suas aventuras no Malilu de Aruanda”. Dessa forma, ela reforça o seu vínculo com a leitura, por ter sido uma leitora quando criança e agora uma leitora também autora. “Faz parte de um processo de transformação do meu ser em que eu pude compartilhar um pouco do que sei com a minha prática e experiência em sala de aula com as crianças”, diz Ingrid.
Quando menina, Ingrid lia revistas de histórias em quadrinhos, como as da Turma da Mônica, e também publicações científicas e culturais. “Lembro de um livro do Urso Pooh que era interativo e bem colorido”, relata.
Para gostar de ler, Ingrid contou com o fato de que os pais dela compravam revistas quando a família ia ao Comércio. A garota adorava conferir Bell Hooks, Conceição Evaristo, Paulo Freire e outros autores. “Ler nos transporta para o nosso imaginário com maior facilidade. Te faz refletir e perceber pequenos aprendizados lendo histórias de outras pessoas. Ou seja, educa de várias formas”, ressalta Ingrid Santos.
Já no preparo de seu próximo ligo, essa educadora e escritora pontua, acerca da Amazônia no universo da literatura infantil: “Nós temos muitos contextos e culturas que fazem a Amazônia ser rica por natureza. Os encantados fazem parte disso, e é importante saudarmos as nossas ancestralidades”. Daí ser importante a criança ler histórias ambientadas na região em que vive, “entrar em imaginários que são do seu próprio território, o que significa o respeito, o pertencimento e valorização dos próprios moradores em seu próprio território”.
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