Mobilidade urbana e sustentabilidade devem ser legados da COP 30 para Belém
Investimentos bilionários em infraestrutura e transporte prometem transformar a mobilidade na capital paraense. Pesquisadora em Engenharia Civil da UFPA destaca medidas adicionais para garantir a plena eficiência do projeto.
Belém está se preparando para sediar a COP 30, um dos maiores eventos climáticos do mundo, com obras estruturais e investimentos que prometem deixar um legado significativo para a cidade. Entre as intervenções mais aguardadas, destacam-se o BRT Metropolitano, novos corredores de transporte e a requalificação de vias históricas como as avenidas Visconde de Souza Franco (Doca) e Tamandaré. No entanto, a eficiência da integração entre diferentes modais (ciclovias, transporte coletivo e fluvial) depende de práticas sustentáveis, aponta a professora da Faculdade de Engenharia Civil da UFPA, Christiane Barbosa.
VEJA MAIS:
De acordo com o Núcleo de Gerenciamento de Transporte Metropolitano (NGTM), o BRT Metropolitano, atualmente em fase de construção, terá impacto direto na mobilidade da Região Metropolitana de Belém, beneficiando mais de dois milhões de pessoas em seis municípios. “Estamos trabalhando dia e noite para entregar o corredor do BRT na BR-316, que inclui pistas exclusivas, passarelas, terminais de integração, além de ciclovias e calçadas", afirma o NGTM em nota enviada à reportagem. Os viadutos em Ananindeua e na entrada de Belém, que integram o sistema, devem ser entregues até o evento.
A professora Christiane Barbosa, que coordena um projeto de pesquisa sobre mobilidade urbana na COP 30, reconhece os avanços, mas destaca a necessidade de medidas adicionais para alcançar a eficiência plena.
“Para que o BRT seja pleno, sua operação precisa ser integrada a outros modos de transporte e alimentada pelo sistema convencional, e não ser concorrente como ocorre atualmente na cidade. A reorganização do sistema e a redistribuição das linhas de ônibus são passos cruciais para garantir o sucesso do projeto”, afirma.
Além do BRT, a aposta em mobilidade sustentável também deve avançar. O governo do Estado adquiriu 40 ônibus elétricos e 225 veículos modelo Euro 6, com emissões reduzidas, para operar no novo sistema. “Esses investimentos representam um avanço significativo para a redução da poluição e a modernização do transporte público”, diz o NGTM, sem mencionar o fortalecimento do transporte fluvial. Segundo Christiane, “o transporte fluvial é uma necessidade latente, mas ainda exige investimentos em infraestrutura, segurança e integração tarifária com os outros modais. Ele pode ser mais atrativo ao uso quando integrado no tempo e na tarifa aos demais modos de transporte urbano”.
As obras viárias também visam revitalizar áreas históricas da cidade. Projetos como o da Nova Doca e da Nova Tamandaré incluem ciclovias, áreas verdes e rede de saneamento, valorizando os rios que cortam Belém e conectando pontos turísticos estratégicos. “Essas intervenções trarão benefícios tanto para os moradores quanto para os visitantes, tornando a cidade mais acessível e agradável”, destaca o NGTM. Christiane ressalta, no entanto, que “esperar que obras isoladas enquadrem Belém como uma cidade sustentável é uma visão limitada. A sustentabilidade exige mudanças estruturais e um planejamento integrado”.
Apesar dos avanços, Christiane aponta para desafios de credibilidade junto à população. “As obras voltadas ao transporte de passageiros geram transtornos, e, somados à qualidade do serviço prestado, caem na descrença da população. Para mudar essa percepção, é fundamental oferecer um sistema de informação eficaz e melhorias na oferta do transporte público”, afirma. Ela também questiona o impacto real das obras: “As intervenções viárias atendem às reais necessidades da população? A criação de novas vias ou duplicações melhorará a fluidez ou apenas priorizará o veículo particular? Essas são reflexões importantes para garantir que os recursos sejam aplicados com eficiência”.
A conscientização ambiental é outro ponto abordado pela professora. Para ela, “a educação coletiva e a universalização de práticas sustentáveis ainda são um trabalho árduo, mas a COP 30 pode marcar o início desse processo. É preciso criar mecanismos que dificultem a circulação de veículos particulares, promovendo a migração para modos de transporte sustentáveis”.
Palavras-chave
COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA