Espetáculo ‘Travessia’ segue temporada gratuita no Sesc e denuncia tragédias fluviais no Marajó
A peça relembra o naufrágio de 2022, mesclando realidade e ficção para dar voz às vítimas
O espetáculo teatral "Travessia" segue com sua temporada gratuita no Sesc Casa das Artes Cênicas, no bairro da Campina, no centro de Belém. Após estrear na última quarta-feira (26/02), a peça chega ao seu segundo dia de apresentação nesta quinta-feira (27/02), com mais uma sessão programada para sexta-feira (28/02), sempre às 19h. Os ingressos são limitados e a distribuição é feita uma hora antes de cada sessão. Criado pelo ator Miller Alcântara, o solo transforma a dor em arte e convida o público à reflexão sobre às vítimas do naufrágios em setembro de 2022, quando uma lancha clandestina que saía do município de Cachoeira do Arari, no Arquipélago do Marajó, naufragou, deixando 22 pessoas mortas.
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Após quase três anos da tragédia e sem respostas das autoridades, Miller começou a se questionar: "Quanto vale a vida de uma pessoa marajoara?”. A indagação deu origem à peça, que conta as histórias das vítimas dessa e de outras tragédias fluviais com vítimas moradoras do arquipélago.
Segundo ele, a peça tem um início e um fim definidos, mas o caminho até o desfecho é determinado pela plateia, o que torna cada apresentação única. "O público define como vai ser a trajetória pelo meio do espetáculo. É interessante falar sobre os assuntos, ter essa interação, porque o público está ali como observador, mas também pode se envolver", explica.
No espetáculo solo, o ator mistura o real e o ficcional para contar histórias interpretando os personagens. As inspirações vêm de sua própria vivência como marajoara, bem como de amigos, familiares e conhecidos. Além disso, há também a participação do público, que escolhe quais acontecimentos querem ouvir, tornando cada apresentação única.
A proposta da peça busca conectar a audiência à emoção do espetáculo. Alcântara destaca que, embora o enredo se baseie em suas próprias vivências, ele representa experiências coletivas. "Eu falo de naufrágios, mas acidentes acontecem em todos os meios de transporte. A lancha aparece na peça porque falo da perspectiva do Marajó, mas o público está sempre suscetível a qualquer acidente", relata.
O processo de pesquisa das histórias se deu de três formas principais: por meio de um projeto de audiovisual que tratava sobre pessoas que estavam em lanchas que naufragaram, pela pesquisa individual de Alcântara como marajoara ao longo de seus 29 anos e por relatos de pessoas próximas. "Não me baseio apenas em uma história que ouvi. Eu junto duas, três, coisas que lembro da minha infância. O processo de escrita não é único. Eu penso no que quero falar e em como o público vai reagir diante dessa história. É um processo contínuo", afirma Alcântara.
A interação do público também influencia diretamente a narrativa. Durante a peça, os espectadores escolhem o nome de uma das 17 cidades do Marajó, determinando assim qual história será contada. "São 17 possibilidades de cena, e isso influencia muito a peça e minha performance. A surpresa do espetáculo é uma cena fixa que amarra tudo, fazendo sentido para a história", explica. Além da experiência narrativa, o espetáculo convida o público a participar ativamente, movimentando-se, dançando e entrando em cena.
Mais do que uma peça interativa, "Travessia" se apresenta como um espetáculo-denúncia. Alcântara destaca a precariedade do transporte fluvial no Marajó, um dos principais temas abordados na obra. "Marajó é uma ilha cercada de água, e o único meio de locomoção é o transporte fluvial. É importante que as pessoas entendam o que se passa ali. Eu tive que sair de Soure para realizar meu sonho de estudar teatro. O que te leva a fazer essa travessia?" questiona.
O ator ressalta que a peça visa chamar a atenção para os riscos enfrentados pelos moradores da ilha. "As pessoas conhecem o Marajó pela perspectiva das belezas naturais, dos búfalos, das cerâmicas. Mas famílias perderam seus entes queridos em acidentes e a vida seguiu. As autoridades não estão preocupadas com essas pessoas. O transporte continua precário e nada é feito. Eu crio 'Travessia' para denunciar essa realidade e para que o público da cidade grande entenda que existem pessoas com sonhos e objetivos que correm perigo todos os dias", conclui Alcântara.
SERVIÇO
Espetáculo “Travessia”
- Data: 26, 27 e 28 de fevereiro;
- Horário: com sessões às 19h;
- Local: no SESC Casa das Artes, em Belém (Blvd. Castilhos França, 722 - Campina);
- Entrada gratuita, mas com ingressos limitados, a distribuição é feita uma hora antes de cada sessão.