Marcia Pantera e seu legado de 35 anos como a Drag Queen criadora do movimento ‘Bate-cabelo’

A atriz, modelo e Drag Queen Marcia Pantera, 53 anos, é conhecida por ser a criadora do movimento "bate cabelo", técnica difundida no universo da performance Drag nacional e internacional

Ellen Moon D'arc

A atriz, modelo e Drag Queen Marcia Pantera, 53 anos, é conhecida por ser a criadora do movimento "bate cabelo", técnica difundida no universo da performance Drag nacional e internacional e ser considerado como mecanismo de força dentro da comunidade LGBTQIAP+ e perpetuada nas “Drag balls”. Com 35 anos de carreira, faz sucesso no Brasil e em outros países como Alemanha. Pantera esteve nos principais palcos com shows e desfiles de moda e vestiu looks assinados pelo estilista Alexandre Herchcovitch, que a considera “musa inspiradora”. Antes de ser a Pantera, já era Carlos Marcio José da Silva um homem gay, periférico, negro e jogador de vôlei, em Suzano, interior de São Paulo.

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São mais de três décadas influenciando gerações de artistas da performance e contando suas vivências. Márcia abriu a intimidade dela e do Carlos para falar à coluna Darg, o quê? em um bate-papo em vídeo descontraído sobre o começo de sua carreira, o auge, os momentos difíceis e de superação da adicção - vício nas drogas ilícitas - e como utiliza sua história para influenciar positivamente as pessoas, levantando a bandeira da diversidade e do respeito. "Tudo começa antes de eu imaginar, no meu subconsciente, na minha infância aos 7 anos. Já somos influenciados por algumas imagens femininas, pelo batom, pelo salto, que eram coisas que gostaríamos, mas que não era permitido", iniciou.

O esporte foi o espaço em que descobriu a sua sexualidade e, também, a ponte para descobrir a Márcia, já que por quatro anos treinava durante a semana, aos finais de semana participava dos campeonatos e nas folgas ia para as boates e foi em uma na NostroMondo, uma das boates lendárias de São Paulo, que nasceu a sua performer e o bate cabelo. "Dentro do vôlei eu descobri muitas coisas. Me trouxe a diversidade, a alegria, a vontade de viver, a competição, a perda. Antes disso, porque eu já tinha um time Gay de vôlei. Éramos amigos e confidentes. E fomos nos descobrindo. Tive uma técnica incrível, a Raid. Ela foi uma mãe. Mudamos o nosso jeito de jogar e ser na quadra", relembrou.

"Nos dias que não tinham jogos, o Joãozinho, que era um levantador maravilhoso do time adulto, também gay, nos levava para São Paulo. Nos levou a boate 'NostroMondo' e eu descobri, que eu não estava perdendo tempo no volleyball, estava ganhando experiência. Mas quando a Márcia chegou, foi uma transformação gigante dentro da minha cabeça. Eu tentei conciliar, mas eu vi que a Márcia me engoliu e eu estava amando o que estava fazendo no palco. Tive tanto apoio que eu não tinha como eu fugir dali", contou nostálgica.

image A atriz, modelo e Drag Queen Marcia Pantera, 53 anos, é conhecida por ser a criadora do movimento "bate cabelo", técnica difundida no universo da performance Drag nacional e internacional. (Reprodução / Divulgação)

Bate cabelo do Pantera, do Brasil e do mundo

A técnica de bater o cabelo, jogando as fibras da lace para a frente, fazendo um oito e tudo isso em perfeita harmonia com a música começou no final da década de 1980, quando Marcia Pantera começou a se apresentar e venceu logo na sua primeira performance, um concurso. A precursora do movimento conta que improvisou um look com vestido da sua mãe e sua tia prendeu um aplique nas trancinhas que tinha nos cabelos. "Meu primeiro show foi um concurso que eu ganhei acidentalmente. Cortei um vestido da minha mãe, tirei as rodinhas do meu patins, usei o que eu sabia de ser passista no Rosa de ouro. Quando eu comecei a jogar o cabelo diferente de tudo o que as Drags faziam. Eu usava umas trancinhas. A Grace Black me deu um aplique e minha tia trancista costurou o aplique na cabeça e eu bati o cabelo mais forte. O Alexandre Herchcovitch assistia aos shows e ia me orientando. Eu fazia o giro do oito, batia numa jaqueta de vinil e fazia um barulho, e eu era ovacionada. Então a Márcia começou esse movimento de bate cabelo", pontuou.

A técnica ficou famosa no mundo todo e a sua amiga Verônica Strass ajudou a popularizar. Márcia se orgulha do legado e faz questão que outras Drags utilizem a técnica. "Eu sou a criadora e precursora do bate cabelo. Tem que ter força, agilidade, cabelo bonito. Tem que amar o que faz. Eu sou a que criou. Mas já pensou se eu não deixasse ninguém fazer? Eu não seria essa influenciadora que sou hoje. O que eu fico triste é quando as pessoas tentam tirar isso de mim. Num momento de franqueza que eu tive", lembrou.

Para falar do presente e futuro, Pantera não esquece de usar seu passado como exemplo e alguns anos difíceis que passou, por conta do uso de drogas. "A droga entrou na minha vida como escravidão. Troquei família, amigos, trabalho, etc. Minha mãe, minha avó e meu irmão morreram e eu não pude me despedir. Eu perdi muito tempo e eu quero correr para recuperar esse tempo. Eu não bebo, não uso nada. Sou uma pessoa careta e feliz", declarou amistosa.

Após a reabilitação Márcia nunca mais parou de trabalhar. Sua agenda divide-se, principalmente, entre o Brasil e a Alemanha, país que de três em três meses viaja para cumprir agenda. Atualmente está aguardando o lançamento de um documentário e amadurecendo a ideia de um longa e um livro. "Já passei pela Espanha, Itália, Alemanha. Quando você fala de uma Drag Queen brasileira, preta... eu alcancei com meu trabalho limpo e bonito. E eu vou dar o melhor de mim para mim. Lá atrás eu plantei uma árvore e eu vim cuidando e ela ficou gigante com raízes profundas. No mês do orgulho LGBTQIAP+ eu digo: sigam suas vidas e suas metas e terem cuidado com as drogas, porque elas podem te tirar do seu percurso. A Márcia e o Márcio falam a mesma coisa. A diferença é que a Márcia alcança mais pessoas. Faz algo que te deixa feliz, vá descobrir o seu caminho", concluiu.

Para acompanhar Marcia Pantera é só seguir no @marciapanteraoficial A iniciativa da coluna "Drag, o quê?", é do Grupo Liberal com Ellen Moon D'arc e tem o apoio do Coletivo NoiteSuja, La Falleg Condessa, Lenny Gusmão (Lenny Laces) e da designer de unhas, Rubi Coelho. Para ficar por dentro de outros conteúdos ou sugerir pautas, é só seguir no Instagram @dragdelua

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